15/04/2006

Boa Páscoa


O AJ não se esqueceu da malta e nesta Páscoa mandou-nos este "produto marca Viriato" da Provir, de fruta e com recheio, fabricados lá para os lados de Santo Estevão. Boa Páscoa para todos e que os mais pequenos não se esqueçam de lavar os dentes!

14/04/2006

Vá, ri-te agora!

Este "vulto" andava a rir-se de mim... Primeiro pintaram-o com uns hieroglifos a encarnado e agora puseram-o às escuras, tal como eu estou! Safam-o o luar e as luzes das montras! E os Luisíadas, claro!
ET: Nem saí do meu lugar... o AJ mandou-me a prova!

13/04/2006

Cromos... do inimigo



O poderio de Roma ficou a dever-se à força das suas legiões, que dominaram o mundo contemporâneo. Os soldados romanos eram valentes e muito disciplinados, destros no manejo das armas, principalmente na esgrima. A espada curta, de dois fios e ponta, chamava-se “gladius”, e à lança toda de ferro, denominavam-na “pilum”. Os legionários usavam capacetes de ferro e couraça de cintas de metal que rodeavam o tronco e os ombros. O ventre ia protegido por um cinto guarnecido com tiras de couro, a que chamavam “cingulum”.
In "História do Trajo Universal" - Colecção de cromos da Agência Portuguesa de Revistas/ Lisboa 1965: Direcção de Mário de Aguiar; Cromos, capas e legendas de José Augusto Pires e Luís Filipe Mota Guedes; Ilustrações e vinhetas de Amaro Brilhante e Supervisão de José de Oliveira Cosme.
ET: O cromo é do inimigo mas quem o mandou foi um amigo, o AJ.

Viriato a 20%

Directamente do produtor (AJ)

Misérias da Cava de Viriato (continuação)

São muitos os sinais de desprezo e abandono pela minha Cava.







Misérias da Cava de Viriato

A máquina do AJ tem registado verdadeiros sinais de desprezo e desmazelo que acontecem na minha Cava. Não bastava terem-me enclausurado, colocado às escuras como ainda permitem que as minhas centenárias árvores vão caindo de velhice sem que ninguém lhes dê uma mão... As imagens falam por si!



09/04/2006

Guerreiro Celtibero do AJ


Quando os Celtas chegaram à Península Ibérica, encontraram outro povo, os Iberos, com os quais se fundiram, formando uma população mista: os celtiberos. Eram de estatura mediana, tez morena, e notáveis pelo ardor combativo e pela incrível força muscular. Uma das tribos celtiberas, os Lusitanos, da qual descendem os Portugueses, ofereceu tenaz resistência ao invasor romano, que só mais tarde, e a muito custo, os dominou.
Os celtiberos usavam mantos de pele de cabra, leves escudos e capacetes de bronze com penachos púrpura.

In "História do Trajo Universal" - Colecção de cromos da Agência Portuguesa de Revistas/ Lisboa 1965: Direcção de Mário de Aguiar; Cromos, capas e legendas de José Augusto Pires e Luís Filipe Mota Guedes; Ilustrações e vinhetas de Amaro Brilhante e Supervisão de José de Oliveira Cosme.

08/04/2006

Misérias da minha Cava



O AJ tem uma máquina nova e vai daí registou os velhos problemas da minha Cava:
Banco de granito partido pela queda de pernada de enorme e centenário carvalho, nas costas e na esquerda do Viriato.
O tal miradouro junto à entrada da Rua do Heróis Lusitanos, fim do primeiro troço da Cava

Não pagaram a conta?

Cá continuo às escuras, mas o boss já se zangou com isto!

Soldado Português – 1914-1918 por AJ

Em 1914 provocado pela Alemanha, começa um pavoroso conflito a que se chamou Grande Guerra. A aviação de combate, o tanque de guerra e o submarino fazem a sua estreia no teatro das guerras.

Eis um soldado português, Viriato doutros tempos, dos muitos que se cobriram de glória nos campos de batalha de França.

In "História do Trajo Universal" - Colecção de cromos da Agência Portuguesa de Revistas/ Lisboa 1965: Direcção de Mário de Aguiar; Cromos, capas e legendas de José Augusto Pires e Luís Filipe Mota Guedes; Ilustrações e vinhetas de Amaro Brilhante e Supervisão de José de Oliveira Cosme.

07/04/2006

Correio dos leitores

Sim é verdade! Depois de várias semanas às escuras, vieram finalmente os operários acender as tochas que iluminam a Cava, mais exactamente a chamada Cava de Baixo, nas traseiras do nosso monumento. Agradeço muito, porém nós continuamos às escuras e a nossa Cava desprezada. Nos anos finais do Séc. XIX a Câmara Municipal transformou a Cava, de modo especial o troço entre a Rua do Picadeiro e a Estrada Velha ( ex- estrada romana), em Passeio Público. À data foi arrasado o fosso ainda existente, aberta uma passagem na base do talude, plantadas árvores, sebes, colocados bancos de granito, escadarias e colocada uma fonte. A Cava foi durante muitos séculos, até ao século XVII, conhecida não como Cava de Viriato mas, como Cerca da Vala. Restos da vala ainda são hoje visíveis em especial no segundo troço da Cava, onde ainda se conserva um pedaço do fosso com água, em anos de chuva. Quanto às árvores, continuam caídas e a impedir o acesso aos visitantes. Na Cava de Cima, outrora com vários pontos de luz, a escuridão continua a ser total! Ninguém a frequenta por ser um lugar descuidado, sujo, malcheiroso e mesmo perigoso! Na praça fronteira há algumas novidades: foram colocados sinais para auxiliar o correr do trânsito, sinais de estacas de ferro e sinais pintados no chão. Espero que agora seja mais fácil e seguro circular por ali. Também a calçada sofreu arranjos pois estava a ficar muito degradada. Aquelas enormes tochas que iluminam o Campo da Feira foram reforçadas para não serem derrubadas pelo vento. Tanta tocha acesa e a desperdiçar força e nós às escuras .... é mesmo muita falta de respeito.Esta cidade não honra devidamente o seu herói !!Viriato, Sou de bronze, mas não sou tolo.

Cava de Viriato, 7 de Abril de 2006

Meus caros amigos!
A passagem através do Campo de Viriato está proíbida. Os carros e as carroças não podem passar. Acho que vão fazer mais obras ou reparações. Ainda hoje sinto saudade de olhar os belos e frondosos castanheiros que foram, cobardemente, abatidos, das sua enormes e belas folhas e das suas belas flores em cacho. Transformaram o Campo de Viriato numa enorme eira. Só que não é usada para secar o milho ou os feijões. Não me cansarei de dizer: Que mau gosto e que desperdício!
Viriato

05/04/2006

Mais Viriato na net

Os cromos do AJ - O Romano


Segundo a lenda, os Latinos deram asilo aos restos dos Troianos, que, capitaneados por Eneias tinham escapado da destruição de Tróia. Os latinos e os Troianos ter-se-iam fundido num só povo. Não menos legendária é a história da fundação de Roma.. Os irmãos Rómulo e Remo, que foram amamentados por uma loba, tê-la-iam fundado e seriam, mais tarde, os vingadores de sua mãe.

In "História do Trajo Universal" - Colecção de cromos da Agência Portuguesa de Revistas/ Lisboa 1965: Direcção de Mário de Aguiar; Cromos, capas e legendas de José Augusto Pires e Luís Filipe Mota Guedes; Ilustrações e vinhetas de Amaro Brilhante e Supervisão de José de Oliveira Cosme.

01/04/2006

Diz-me o Viriato que...

Há mais da minha história por aqui.

Por cá nem selo nem parecê-lo?

Viriato, chefe militar lusitano que combateu o invasor romano, faz parte da História da Península Ibérica. Figura disputada por portugueses e espanhóis, surge agora num selo – no valor de 20 cêntimos – integrado numa série dedicada à ‘História de España’ lançada pelos correios do país vizinho.
in CManhã

Às escuras, triste e abandonado

O Viriato está às escuras. Há cerca de um mês uma forte tempestade provocou estragos na cidade de Viseu, entre eles a queda de postes de electricidade. A zona da Cava de Viriato foi uma das afectadas. Além da queda de árvores, também os fios de electricidade foram danificados.Mas, passado todo este tempo, a situação ainda não foi corrigida, conforme explicaram ao nosso Jornal alguns moradores que vivem perto da Cava de Viriato. Dizem que, além do monumento ao guerreiro lusitano estar sem luz, há fios que estão caídos no chão. "Desconfio que os fios até têm electricidade e qualquer criança pode ir para lá e mexer", afirmou uma das habitantes mais preocupadas.
In
DRegional

28/03/2006

Outros tempos

Se queres saber mais da história dos meus tempos, clica aqui! Como verás, naquela época usava-se muitos os cavalos, hoje... são mais os burros que fazem história!

Sempre vigilante


Cá continuo eu por aqui... atento!

26/03/2006

Passado sem futuro


Um pardal amigo que passou aqui, pelo meu poleiro, na Cava veio informar-me e eu fui ver. Sim é verdade! Ruiu um pedaço das antigas muralhas da cidade de Viseu, das muralhas de D. Afonso V . Como alguns saberão a cidade tinha sete portas e o troço que caiu fica localizado entre os números 28 e 12 da Rua dos Loureiros, à esquerda de quem sobe em direcção à Sé e antes da antiga Porta da Senhora do Postigo, junto à última sede do Clube Académico de Futebol – o Académico de Viseu, para os de fora da cidade. Há cerca de dois anos que se fizeram ali demolições de prédios muito antigos e em mau estado. O objectivo era fazer obra nova mas, como as obras previstas ainda não foram concretizadas, e porque não houve o cuidado de acautelar e preservar o monumento medieval o desabamento foi inevitável. Já por ali vi, muitas vezes, carros sem cavalos parados, não sei se algum foi atingido pelas pedras. Estas notícias, são para mim, sempre motivo de desgosto e deveriam envergonhar os mortais. Mais uma vez fico muito agradecido e peço a divulgação desta minha mensagem.
Sou de bronze mas, não sou burro…
Viriato

Cromos (do AJ)

No século X A.C., os Fenícios quiseram colonizar o Noroeste da Europa, mas foram exterminados pelos Celtas, procedentes da Ásia, que se tinham instalado no Danúbio, na Suiça, na Gália, em Espanha e nas Ilhas Britânicas. Eram gordos e fortes, com grandes bigodes e cabelos como crina, cuja cor preta mudavam para loiro, tingindo-o com água de cal. Os romanos ficaram tão admirados com o trajo dos celtas que chamaram ao país "Gália Calçuda", por eles usarem amplas calças a cobrir as pernas.A arma principal dos Celtas era o "celt", machado de arremesso de tremenda eficiência.
In "História do Trajo Universal" - Colecção de cromos da Agência Portuguesa de Revistas/ Lisboa 1965: Direcção de Mário de Aguiar; Cromos, capas e legendas de José Augusto Pires e Luís Filipe Mota Guedes; Ilustrações e vinhetas de Amaro Brilhante e Supervisão de José de Oliveira Cosme.

13/03/2006

Se já não fosse verde.... ficava verde de raiva!


Pois é, é um verdadeiro escândalo, embora escondido.... Já aqui contei que há algumas semanas a nossa Cava, foi fustigada pelos deuses da chuva, dos trovões e dos ventos. Em consequência disso corremos risco de vida e tivemos que nos abrigar. Finalmente descobrimos a utilidade da Pala que o Senhor Arquitecto Manuel Salgado e ous seus colaboradores mandaram executar, na Porta da Feira de São Mateus e a que deram o meu nome, mesmo sem pedir a minha autorização. O muro já vi que tem servido para os cães a até pessoas mijarem! Se não acreditam perguntem aos vizinhos...
A inclemência dos deuses derrubou e partiu árvores: Carvalhos, Cedros, Castanheiros, Pinheiros e Eucaliptos (estas últimas desconhecidas nestas paragens nos meus tempos de mortal). As árvores e os seus despojos continuam, passadas várias semanas caídas e a passagem sobre a Cava dificultada ou até impedida. Um dos poucos bancos de granito que ainda existia foi partido, pela acção da queda de uma enorme pernada de um Carvalho centenário. O miradouro da Rua do Picadeiro está pejado de cedros e ramos partidos, o outro existente do lado da Estrada Velha, a ex-estrada romana, que foi desmontado no Verão, por ameaçar ruína, continua à espera de ser reconstruído. Não sei se o impedimento é motivado por razões administrativas ou técnicas, por incúria ou falta de pedreiros. A muralha continua a desfazer-se, a esborroar-se, por falta de protecção e as últimas chuvas fizeram mais estragos. As árvores que tombaram pela raíz e abriram enormes buracos na muralha, continuam à espera de ser removidas e a muralha a erodir-se. Quanto a lixo a Cava continua a ser uma estrumeira e a servir para defecar. Alguém começou a vassourar na zona dos enormes eucaliptos e “esqueceu-se” de retirar o lixo e os detritos amontoados, aqui e além... ficou bonito. Nas minhas costas está outro pequeno monte de lixo varrido e escostado à escadaria e pasme-se... fios que levam a luz para as tochas, seguros e levantados com estacas improvisadas de ramos de árvores. Nós continuamos às escuras, agora ainda mais, e estamos a ficar fartos. É uma verdadeira vergonha! Estou a pensar mandar um dos meus homens falar com o nosso ingrato vizinho, o Senhor Dr. Américo Nunes, que já ouvi dizer ter sempre o portão aberto para falar com os vizinhos. Confio que não seja só um dito para sair de situações de aperto ou promessa eleitoral e que o meu mensageiro seja recebido. Reafirmo é uma vergonha – a Cava é um Monumento único em Portugal, raro no mundo e continua ao abandono.
Um país que não saber cuidar dos vestígios do seu passado, não tem bom futuro!
Viriato
Sou de bronze mas, não sou burro!
P.S. A Câmara ou a Expovis podem mandar retirar o que sobrou da cerca da Feira, que nós não precisamos dela para nada!
Ao Senhor Administrador desta página, agradeço que espalhe estas tristes novidades e publique com destaque e foto, mesmo que antiga.

12/03/2006

Conselho de Viriato

Têm chegado à nossa Tertúlia muitos conselhos. Aqui fica mais um!

10/03/2006

Dos meus admiradores

E, diz o sempre atento Viriato (o outro, claro!) que "para vencer o inimigo é necessário conhecê-lo"! Aqui, o meu admirador pinta este quadro!

E, chega a marreta?


Para aprenderem mais sobre as armas e equipamentos que, naquele tempo, me vi obrigado a usar, passem os olhos por aqui! Hoje, para fazer a mesma cruzada e limpar o nosso burgo de indesejáveis traidores e detractores do futuro, a lança já não chega... só mesmo à marretada!

A nossa Língua


Para aqueles que apreciam a literatura, deixo-vos aqui algumas considerações sobre a linguagem que, nós os Lusitanos, usamos!

24/02/2006

Viriato na Literatura (do atento leitor Viriato, pois claro!)


“VIRIATO – O Filho Rebelde”

Após um período de Paz, na segunda metade do Séc. II A.C., as Hispânias (actual Península Ibérica), voltaram a conhecer períodos conturbados devido ao levantamento de alguns povos locais que não se conformavam com o jugo romano. Enquanto isso, Viriato, como todos os jovens, pensava saber todas as verdades. Impelido pela comparação entre a sua audácia e a serenidade de Aurelur, seu pai, julgava ver nela cobardia. A acomodação que Viriato pressentia no pai exasperava-o, ao ponto deste ser ver obrigado a colocá-lo fora de casa, não como castigo, mas para que o filho visse o mundo, conhecesse a guerra. Aurelur pretendia que Viriato voltasse outro homem desta caminhada. Ele voltou, mas não como o pai tinha imaginado...

Romance de Sónia Louro que nasceu em 1976, em França e se Licenciou em Biologia Marinha, pela Faculdade de Ciências do Mar e do Ambiente, na Universidade do Algarve. Apesar da sua formação académica na área das Ciências, sempre se interessou pelas Letras e pela História, o que a levou a escrever este romance. Foi vencedora da 5ª Edição do Concurso Literário Dr. João Isabel.

“Viriato – O Filho Rebelde” de Sónia Louro, Via Occidentalis Editora, Lda. , 1ª Edição em Janeiro de 2006, 234 Páginas, Capa de José de Madrazo Y Agudo – Pormenor de “La Muerte de Viriato”( Museo Nacional del Prado - Madrid) e Luís Rodrigues.

23/02/2006

Viriato na net

Eu na BD

Por Endovélico ! Que grande tristeza sinto!

Vou contar-vos, sem mais rodeios, o que se passou pois tenho que voltar para o meu poleiro, agora está ainda mais às escuras....
No último fim de semana o enorme temporal que se abateu impiedosamente sobre esta parte da antiga Lusitânia e sobre a nossa querida cidade de Viseu, causou grandes danos na nossa Cava.
Se eu e os meus valentes guerreiros não tívessemos desviado a tempo, teríamos sido atingidos pelas enormes pernadas de árvores partidas e derrubados pela fúria dos ventos e da chuva.
Cedros, Carvalhos e outras árvores foram quebradas ou desenraízadas.
Sobre a minha Cava não se pode circular, continua atulhada de detritos e despojos das minhas queridas companheiras e amigas árvores.
O enorme Cedro que nos abrigava e que numa emergência servia de urinol, (lembram-se da minha visita à Feira de São Mateus no dia da inauguração?) está muito danificado e jamais voltará ao seu antigo esplendor.
Espero que não se limitem a retirar as árvores e que rapidamente se plantem novas para substituir as agora desaparecidas.
VIRIATO
02.22.06 - 5:28 pm

19/02/2006

Infantes de Viriato


I – Denominação histórica:
Regimento nº 14 – Infantes de Viriato.

II – Divisa de honra:
“Cuja fama ninguém virá que dome.”

III – Legenda histórica:
Buçaco - 1810; Olivença - 1811; Albuera - 1811; Badajoz - 1811; Victória - 1813; Pamplona - 1813; Nivelle - 1813; Nive - 1813; Toulouse - 1814; Sul de Angola - 1914; Flandres - 1918

IV – Distintivo heráldico:
Escudo heráldico, sobreposto por duas espingardas cruzadas e o número 14.
No interior da cercadura do escudo:
“Cuja fama ninguém virá que dome” (envolvendo superiormente).
“Viriatos” (envolvendo inferiormente).
Ao centro : A figura de Viriato.

Interpretação da figura:
Olhar de Viriato – Vigilância permanente.
Escudo – Espírito defensivo.
Lança – Espírito ofensivo.
Capacete – Prontidão para a luta.

Cores:
Branca (destinada à 2 R.M.) – Das serranias cobertas de neve.
Negra – Que sintetiza sacrifício e dureza.

In Revista Beira Alta - 1961/1º Trimestre, “Subsídios para a História Militar da Beira Alta”, do Major de Infantaria António José do A. Balula Cid (Desenho do autor).

Enviado pelo Viriato

Viriato no Teatro


“Viriato” (Peça em 3 actos) de Diogo Freitas do Amaral

Estreia: 25 de Setembro 2003 no Teatro da Trindade – Lisboa

Direcção, concepção e espaço cénico de João Fraga.
Personagens e elenco principal:
Viriato – Gonçalo Dinis
Tangina – Sandra Celas Dilécia – Ângela Pinto
Astolpas – Victor de Sousa
Audax – Pedro Carmo
Táutamo – Jorge Parente
Ditalco – Martinho Silva
Minuro – Carlos António

Nota: Esta peça é uma obra de ficção, embora assente em alguns factos historicamente comprovados. Curiosamente, sabe-se alguma coisa da vida. Dos feitos e da maneira de ser deste grande chefe guerreiro, porque os Romanos, exasperados com as derrotas sucessivas que lhes infligia, começaram a enviar para cá, juntamente com novos exércitos, cronistas e historiadores que deixaram trechos muito importantes sobre o “pastor – guerrilheiro – general” dos Lusitanos.

BERTRAND EDITORA - Chiado 2003, Capa de Ana Sofia Monteiro sobre ilustração de Andrea Rocha.

Enviado pelo Viriato

04/02/2006

Viriato na net

A Wikipédia explica-nos tudo sobre Viriato.

Viriato sempre foi um lutador


Por aqui também anda o Viriato... e anda zangado com a CMV!

28/01/2006

Noutras línguas

Como último caudillo de los lusitanos, tuvo en jaque durante varios años a las legiones romanas. En su primera gran victoria, fingió una retirada y arrasó a las tropas de Vetilio. «Roma no paga traidores» fue la frase que, según la leyenda, tuvieron que escuchar sus tres asesinos: Ditalcón, Audax y Minuro.
Cuando España aún no era España -ni Portugal, Portugal-, Viriato ya era Viriato. Siglo y medio antes del nacimiento de Cristo, mientras romanos y cartagineses remataban su pugna por el dominio del Mediterráneo, incluyendo a Hispania de forma muy especial, Viriato llegó a dominar militarmente casi toda la Península, desde el valle del Guadalquivir al valle del Ebro. En aquel mosaico de tribus en retirada y entre los dos grandes imperios de la época, el genio militar del último gran jefe de la tribu de los lusitanos consiguió un poder indígena como seguramente no existió antes y no volvió a existir después. Viriato, como Indíbil y Mandonio, es un símbolo de la Iberia que los cronistas romanos retratan en su crepúsculo, mientras la civilización grecolatina, a sangre y fuego, entraba lentamente en la Península. La novelería romántica ha hecho que Viriato, enemigo de Roma, figure en nuestro panteón imaginario con más méritos que Sertorio, Pompeyo o Julio César. Cuando antaño se enseñaba Historia en píldoras mitológicas, Viriato era «un pastor lusitano». Pero aun en el caso de que alguna vez cuidara ovejas o cabras, fue bastante más que pastor (con ser nobilísima esta profesión) y no un lusitano cualquiera. Cuando el historiador Apiano de Alejandría, en su libro sobre Iberia -VI de su Historia Romana-, cita por primera vez a Viriato, dice: «Aniquiló a numerosos romanos y dio muestra de grandes hazañas». En realidad, Viriato tuvo en jaque durante varios años a las legiones, les infligió media docena de derrotas humillantes, recorrió, revolvió y casi dominó las dos Hispanias, la ulterior y la Citerior, mató a miles de soldados romanos o aliados y murió de confianza, veneno anterior al de la traición. Puede decirse también que murió por pactar, pero eso no lo acredita como centrista póstumo. Hay sabios que lo consideran sólo un aspirante a reyezuelo cuya ambición tropezó con la implacable Roma, hecho que celebran. Lo que seguramente ha cautivado la imaginación de las sucesivas generaciones de lectores más o menos celtíberos es su soberbia aparición en los libros de Historia, digna de Don Juan en la Hostería del Laurel. Cuenta Diodoro de Sicilia que un hombre rico llamado Astipas concedió la mano de su hija a un tal Viriato y organizó el ya entonces forzoso banquete nupcial. Pero el novio no apreció la vajilla de oro que en su honor se exponía, sino que, apoyado en su lanza, soltó un discurso sobre lo poco que valían las riquezas cuando otros -es decir, los romanos- decidían su destino, se negó a lavarse las manos, repartió a su escolta algo de comer, reclamó a la novia, la subió a la grupa de su caballo y partió sin despedirse hacia su guarida en las montañas. Reconózcase la plasticidad de la estampa. Pero su majeza incluía no poca crueldad. Años más tarde, cuando Astipas era voluntario rehén de los romanos, lo reclamó y le cortó el cuello. Es el protomártir de los suegros hispanos. Viriato pudo nacer en la Sierra de la Estrella, al norte de la Lusitania, que se extendía por la mitad de lo que ahora es Portugal y las tierras limítrofes entre Zamora y Badajoz. Estrabón tenía a los lusitanos por la nación más poderosa entre las ibéricas, pero indudablemente no era la más próspera. El bandidismo endémico muestra una clara dependencia del pillaje como modo de mantenimiento, así como escasez de tierras fértiles para una población que no se bastaba con el pastoreo y recurría a la guerra para alimentarse. Los tributos que probablemente cobraban desde antiguo entre la población de los valles del Guadiana y Guadalquivir les llevaron al enfrentamiento con los romanos cuando éstos empezaron a repartir tierras de la Bética entre sus colonos, sobre todo tras la Segunda Guerra contra Cartago. Dos caudillos destacaron contra las legiones de Roma: Púnico, que murió en combate, y Césaro, que dominó toda la costa bética, y proyectó lo que luego sería el salto lusitano más audaz aunque sin consecuencias: el paso del Estrecho. Pero la época heroica y decisiva de la entrecortada historia lusitana llegó cuando el pretor Galba, cuya codicia y crueldad lo precedían, consiguió reunir a los lusitanos alzados, dividirlos en tres grupos para hacerles entrega de tierras, desarmarlos y luego degollar a muchos de ellos y vender al resto como esclavos. Entre los que escaparon de la degollina estaba Viriato, que tras hacerse elegir jefe inició una brillante carrera militar de ocho años. No eran pocos cuando el promedio de edad apenas llegaba entonces a los 30 años. Cultivó Viriato tres cualidades básicas del guerrillero: el aprovechamiento sistemático del terreno para las emboscadas, la audacia para cambiar el escenario de los combates, gracias a la movilidad de sus tropas, y la capacidad de actuar muy lejos de sus bases de aprovisionamiento, lo cual suponía también mucha mano izquierda para lograr alianzas sobre la marcha y pactos de manutención sobre el terreno. La primera victoria de Viriato fue junto a la ciudad de Tríbola, al sureste del Guadalquivir, donde fingió una retirada que terminó en copo y destrucción de las tropas de Vetilio. Era el año 147 antes de Cristo. Batió entonces la Carpetania, combatiendo incansablemente hacia el Norte y el Este hasta tomar Segóbriga, ciudad clave de lo que hoy es aproximadamente Cuenca. Se retiró entonces al Monte de Venus, cabe la inaccesible fragosidad de Gredos, y desde allí se convirtió en el terror de la Hispania Citerior tras haber dominado la ulterior. Plancio, Unimanio y Nigidio sucedieron a Vetilio en la lista de víctimas viriatenses. Comienza entonces una lenta e implacable reconquista romana de los territorios perdidos. La liquidación de la guerra de Cartago permitió al Senado allegar más hombres y recursos para luchar contra los insoportables lusitanos, que exhibían además una gran capacidad diplomática con diversas tribus ibéricas como los vettones y otros feroces vecinos. El mérito suele atribuírsele a Viriato, aunque el enemigo común había levado a las tribus peninsulares a una especie de confederación político-militar nada desdeñable. Lo que no podía el guerrero del Monte de Venus era hacer milagros. En el año 144 a.d.C. los romanos recuperaron el control del valle del Guadalquivir. Algunos historiadores creen que Quinto Fabio Máximo derrotó a Viriato en Bailén, si era ése el lugar de Baecula. Otros lo sitúan en los Arapiles, así que no salimos de la imprecisión evocadora de tantos combates peninsulares trascendentes, siempre en los mismos sitios. Tras la derrota ante Fabio Máximo, el caudillo lusitano se refugió en Sierra Morena, faltaría más, y desde allí hizo frente a la gran expedición de Serviliano y unos 20.000 soldados. Viriato consiguió batir a las legiones en una sorda guerra de desgaste y mantener hasta el año 142 sus posiciones en torno a lo que hoy es Martos (Jaén), entonces llamado Tucci. Pero Serviliano y Fabio Máximo fueron privándole de sus bases de apoyo y en el 140 tuvo que retirarse a Lusitania. Consiguió rehacerse, que es el sino de todos los grandes generales antes de la derrota definitiva, y vengarse de Serviliano en el campo de batalla. Pero tras la victoria se avino a firmar la paz y ésa fue su ruina. En una de las diversas treguas que acordaban sin convicción ambas partes desde el año 140 a.d.C., Viriato mató a su suegro, miembro de la clase dirigente lusitana que tal vez había decidido ya el pacto con los romanos. Y finalmente, en el 139 a.d.C., pudo recibir la oferta de ser rey de una Lusitania independiente y aliada de Roma. O tal vez la propuesta fue suya y los romanos fingieron aceptarla; sobre eso no hay acuerdo. El hecho es que tres de sus enviados, Ditalcón, Audax y Minuro, volvieron del campamento romano con más oro del que llevaban y se lo ganaron apuñalando a Viriato. Cuenta la leyenda que, muerto el héroe, los asesinos volvieron a por lo suyo y los romanos, avarientos, le respondieron: «Roma no paga traidores». La frase es notable pero apócrifa. Los lusitanos no se metían en magnicidios gratis. Muerto Viriato, sus guerreros le rindieron homenaje cantando himnos, degollando animales y combatiendo por parejas sobre su tumba, fórmula del entierro de primera en aquellos siglos tremendos. Una vez quemado su cadáver en la pira ritual, aventadas sus cenizas y apagado el gran fuego nocturno, los lusitanos no encontraron -tal vez por no quererlo buscar- sucesor para Viriato y fueron entrando en la órbita romana. Abrían así el camino para la inmediata dominación de los celtíberos de la meseta septentrional, clave estratégica de la península y cuyo último foco de resistencia fue Numancia, que se rindió, en términos menos heroicos de los que cuenta la leyenda, apenas cinco años después de la muerte de Viriato. Por eso puede decirse que con él se extinguió la antigua Iberia y que Hispania, aunque algo chamuscada, entró definitivamente en la Historia. A golpes, sin duda. Pero entró, entró.
Mais aqui e aqui

Fragmentos

Segundo Floro, Viriato poderia vir a ser o Rómulo da Espanha. Mas, em face da civilização romana que ia progredindo com a conquista, um Rómulo do Ocidente vinha já fora de horas, nos parece. A independência da Lusitânia necessitava, sim, de um homem que soubesse repelir a invasão estrangeira, como fez Viriato, mas que ao mesmo tempo organizasse o plano gigantesco da fusão de trinta povos independentes, senão hostis, e que estabelecesse entre eles a paz e segurança que lhes faltava. Aqui está em resumo o quadro que Estrabão nos pinta da Lusitânia pré-romana. O seu solo é rico em metais de toda a espécie, abundante em toda a qualidade de frutos, excelente para a criação de gados; mas todas estas indústrias estavam arruinadas e haviam sido por fim abandonadas, porque as classes produtoras estavam à mercê dos bandos armados, que as salteavam de improviso, metendo tudo a saque. Tendo de interromper a cada momento o trabalho, para correr às armas, e defender os seus haveres, esta gente desanimara de tudo, e acabara por adoptar o ofício dos seus perseguidores. Daqui a alcunha de “ninho dos ladrões”, dada à Lusitânia inteira. Sem dúvida há nesta pintura exageração evidente. Se este bandoleirismo fosse geral, é de primeira intuição que ele acabaria por si mesmo, à falta de alimento. O que porém é provável é que a classe dominante dos povos lusitanos fosse um militarismo brutal e insolente, que não reconhecia outro direito senão o da ponta da espada, e fazia dele modo de vida. Do espanhol em geral, dizia Justino que a sua paixão era a guerra; quando a não tinha fora, procurava-a dentro de casa. Dos galegos, um ramo dos lusitanos, diz ainda que as mulheres se empregavam nas ocupações domésticas e na lavoura, enquanto que os homens só se davam à guerra e à rapina. A guerra era um ofício, um modo de vida. Ora imagine-se qual será o teatro deste militarismo de profissão em povos pequenos e desunidos, que nunca justificaram a guerra com o pretexto dum alargamento de território, dum engrandecimento político. Infalivelmente é sobre os povos vizinhos que eles planeiam as suas correrias, com a mira no saque. É isso mesmo o que nos confirma a inumerável quantidade de cidadelas pré-romanas, em ruína pelos nossos altos, e que revela bem o grau de desconfiança em que cada povo vivia em relação ao seu vizinho. Dando a estes bandos o nome de ladrões, os gregos e os romanos eram justos, nos parece. Esqueciam apenas que os grandes vultos dos seus séculos heróicos não tinham sido outra coisa, e que o que eles lançavam à conta de perversão moral era o produto das ideias duma civilização atrasada, pela qual os austeros censores tinham passado também. Neste período chamado “heróico”, ser ladrão ou pirata não é vergonha nenhuma. Ulisses, por exemplo, conta com toda a simplicidade a um dos seus hóspedes, como surpreendeu traiçoeiramente uma cidade da beira-mar e a saqueou valentemente. A vergonha era efectuar estas empresas militares em volta a casa “com as mãos vazias”. Se romanos e gregos se encontravam agora já longe desse heroísmo selvagem, tinham a agradecer o benefício não tanto a si, como às civilizações mais adiantadas com que se puseram em contacto. O isolamento dos povos do Ocidente explica bem a perpetuação deste anacronismo, que a cultura romana punha em maior relevo. O certo é que ele era um facto, e que o estado anárquico de toda a Lusitânia não tinha senão aqui a sua principal origem. Precisamente à frente destes bandos guerreiros é que se vai colocar Viriato.
No tempo de Viriato (Fragmento de um estudo)
Francisco Martins Sarmento
A Vida Moderna, Porto, 1880 — vol. — I, pág. 261

14/01/2006

Haja respeito!

Uns quantos "engraçadinhos", para não lhes chamar merecido epíteto, resolveram usar a minha imagem nisto! Não quero aqui exaltar as minhas virtudes, mas nunca nos meus defeitos tal ideologia coube ou caberá! Retirem-me já disto! Respeitem a minha memória e sobretudo as gentes lusitanas!

11/01/2006

A história ano após ano

Em 1951 um jornal local, órgão oficial da comissão distrital de viseu da união nacional, já escrevia sobre a Cava de Viriato. Em título: Monumento Nacional abandonado! 55 anos depois o artigo está actual...


03/01/2006

Para comparar... e relembrar

Aqui ao lado... Viriato em Rock! Por cá... IberRock!

750 mls de Viriato... espanhol, pois então!

Viriato noutras línguas


(...) Il capo dei Lusitani Viriato organizzò altre tribù celte per riprendere la resistenza armata. Nel 147 a.C., egli si scontrò con il governatore romano Caio Vetilio in una battaglia campale a Tribola. Vetilio fu ucciso e per i romani si risolse con una schiacciante sconfitta. Viriato incontrò e sconfisse C. Plaucio in Carpetania nel 146, Claudio Unimano, governatore della Citeriore, C. Nigidio nel 145. Alla fine, nel 142 a.C. dopo l’ultimo passo indietro, Roma inviò un nuovo esercito consolare al comando di Quinto Fabio Massimo l’Emiliano, che mise in rotta l’esercito di Viriato grazie al peso dei numeri. Viriato si ritirò a Baicor (Baecula). (...)

Viseu, Viriato... e os outros!

Quadro de Paulo Neves exposto no ISPV! Do titulo do quadro, os outros devem ser a rede metálica que encerra o monumento e todo o desprezo a que este herói e a sua homenagem foi votada na nossa cidade...

Aqui perto... diferente de cá dentro!

Excelente artígo de Eduardo Sanchez Moreno (Departamento de Historia Antigua, Universidad Autónoma de Madrid) este que aqui vos deixo resumido:
"La semblanza que del famoso jefe lusitano consagra la historiagrafía antigua sirve de paradigma para reflexionar sobre un fenómeno de hondo significado en la vida de los pueblos prerromanos, la guerra. Entre los muchos enfoques posibles, la acción bélica es revisada en tanto mecanismo de contacto cultural generador a su vez de una serie de efectos sociales y económicos en el seno de los grupos litigantes. Recurriendo además de a las fuentes literarias, a apoyos arqueológicos (distribución de riqueza en necrópolis de fines de la Edad del Hierro, con especial atención a las “tumbas de guerrero”) y a modelos antropológicos, intentaremos dilucidar el papel que la redistribución de botines y tributos guerreros - entendidos como el resultado de un intercambio violento en cualquier de sus modalidades (contienda, ataque puntual, robo...) - desempeña en la articulación socio-política de las gentes del occidente peninsular. La manera en que los “jefes militares”, que son quienes suelen dirigir estos repartos, proceden a la distribución de mercancías entre la población, se muestra en el registro literario como argumento moralizante o anecdótico según los casos. Pero al tiempo constituye un testimonio útil para refrendar la existencia de una fuerte jerarquización habida cuenta que este procedimiento camufla en sí mismo una medida de ordenamiento social. Sólo en este sentido nos permitimos calificar a Viriato con el poco ortodoxo apelativo de jefe redistributivo."

21/12/2005

Lusitanos! Uns mais que outros, mas somos todos...


Os Lusitanos são vistos como os antepassados dos Portugueses. Eram um povo celtibérico que viveu na parte ocidental da Península Ibérica. Primeiramente, uma única tribo que vivia entre os rios Douro e Tejo. Ao norte do rio Douro limitavam com os Galaicos e Astures na província romana da Galécia, ao sul com os Béticos e ao oeste com os Celtiberos na área mais central da Hispânia Tarraconensis.
A figura mais notável entre os lusitanos foi Viriato, um dos seus líderes no combate aos romanos!

14/12/2005

O Colar de Viriato


Viriato – O Colar dos Deuses é um romance histórico onde as guerras lusitanas e o assédio e destruição da cidade celtibera Numância constituem o pano de fundo da viagem que Marco Lúcio Numa, historiador romano, empreende, a mando de Cipião, o Africano, pela antiga Ibéria até às terras da Lusitânia com o objectivo de recolher informação sobre um personagem admirado, inclusive pelos seus inimigos: Viriato. O autor baseia-se nos testemunhos dos historiadores clássicos, tais como Políbio, Estrabão e Diodoro, para divulgar com rigor e verosimilhança uma série de acontecimentos históricos da época, nomeadamente os relacionados com a liderança extraordinária de Viriato na resistência à invasão romana.Por outro lado, Fernando Barrejón, romancista e poeta espanhol, impregna o romance com uma grande profundidade psicológica e beleza literária ao fazer ressaltar o grande conflito interior do romano Lúcio Numa, narrador, que se apaixona pelos costumes e sabedoria dos «bárbaros» lusitanos. «A sabedoria dos povos célticos representou uma grande descoberta para mim, porque, embora não esgrimam a lógica nem cultivem a retórica, experimentam, isso sim, as ideias puras que transcendem a linguagem. Com Icorbeles aprendi que existe uma vida inexprimível no outro lado dos conceitos.»
VIRIATO, O Colar dos Deuses, Fernando Berrejón, 1ª Edição: Novembro de 2004

Viriato na letra de Pedro Barroso

Viriato
Trago comigo uma guitarra para a viagem

na minha voz esta canção antiga
tenho nos olhos mais do que a paisagem
a memória e o sal da gente amiga
não feneceu ainda em mim o velho sonho
trago na ideia uma razão e um sentido
que eu tenho o mar, o fundo mar, por testemunha
e a esse mar que em mim navega tudo é devido
e há qualquer coisa em tudo isto
que eu não posso ou sei esconder
e que faz com que vos cante esta canção
é uma história um gesto antigo que eu nem sei como dizer
Viriato tem mil anos de razão
É do verde e fresco Minho que eu vos falo
e dessa calma alentejana que nos cala
e é em casa junto ao rio Tejo que me embalo
e é em Sagres que essa história mais nos fala
lá nas Atlântidas perdidas de um sonho
ou num velho cacilheiro que nos leva
e há nas ancas das varinas no Porto, na ribeira,
todo um mundo que nos lembra e que celebra
e há qualquer coisa em tudo isto
que eu não posso ou sei esconder
e que faz com que vos cante esta canção
é uma história um gesto antigo que eu nem sei como dizer
Viriato tem mil anos de razão
(letra e música de Pedro Barroso in CD "Cantos D' Oxalá", 1996)

Segundo Fernando Pessoa

VIRIATO
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instincto teu.

Nação porque reincarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste-
Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquella fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada

Pensamento de Viriato

O mérito não está em fazer parte da maioria que desiste mas sim da minoria que resiste!

A Insígnia do Touro

A VOZ DOS DEUSES
I
Durante a Primavera fizemos pequenas incursões na Betúria, mais para sobreviver que para enfrentar seriamente os Romanos. Os nossos efectivos não permitiam uma ofensiva – Cúrio e Apuleio teriam uns dois mil homens, nessa altura – e só podíamos atacar de surpresa e em terreno conhecido.
Apesar disso, ou talvez por isso mesmo, aquela Primavera foi para mim um período importante porque me habituei à vida de campanha, às longas marchas, a viver o dia-a-dia, a enfrentar o perigo constante. Habituei-me também ao lado menos brilhante da guerra, o espectáculo das aldeias saqueadas e das mulheres violentadas (coisa que nunca gostei de ver; mas alguns dos nossos eram especialistas nisso e os príncipes toleravam a prática, embora não a seguissem). Na verdade, o que menos me agradou foi sentir que éramos mais um bando de salteadores que um exército. Não havia objectivo, excepto viver à custa dos saques e matar Romanos.
Outro aspecto penoso mas inevitável da guerra é assistir à morte de camaradas com quem na véspera se partilhou uma refeição à roda da fogueira. Assim perdi o meu amigo Indibilis, que morreu durante um assalto, trespassado por uma lança. Vinguei-o matando o legionário que o atingiu. Antes de morrer, Indibilis ofereceu-me o seu capacete de bronze e pediu-me que, em troca, enterrasse o seu corpo. Cumpri esta vontade; fora um guerreiro corajoso e um bom amigo, sempre pronto a instruir-me no ofício da guerra.
Quando o tempo aqueceu, anunciando a chegada do Verão, um grupo de cavaleiros de além-Tagus veio até nós com mensagens para Cúrio e Apuleio. Os príncipes ouviram os recém-chegados em privado, mas logo a seguir convocaram uma assembleia de tropas. Os mensageiros, instados a repetir em público o que haviam dito aos comandantes, anunciaram que estava em preparação um ataque em larga escala, dos Lusitanos e dos seus vizinhos, contra a província Ulterior, para vingar enfim a traição do pretor Galba. Naquele momento, acrescentaram, formava-se uma coligação de reis, príncipes e chefes tribais; entre os povos que enviariam contingentes para a nova grande hoste contavam-se os Igeditanos, os Taporos, os Túrdulos de Aeminium e Conímbriga e também os Vetões, fiéis à aliança com a Lusitânia. Havia ainda muitos outros – ao todo, cerca de dez mil guerreiros. Alguns chefes, dos mais ilustres, tinham manifestado o desejo de propor a Cúrio e Apuleio que participassem na expedição e os emissários ali estavam: se a proposta fosse bem recebida deveríamos comparecer na grande assembleia que se ia realizar junto dos montes Hermínios.
O debate foi curto porque, afinal, os comandantes já haviam decidido aceitar o convite. Os mensageiros, que nos serviriam de guias, foram honrados com um festim – não muito abundante, já que todos nós devíamos ficar suficientemente sóbrios para partir ao romper da aurora, por isso a cerveja e o vinho foram
racionados. No entanto, quando me deitei sentia-me tonto; não por causa do álcool, mas pela excitação. Finalmente, Roma ia ter uma resposta, Camalo e Beduno poderiam repousar contentes no reino dos espíritos.
Atravessámos o Tagus não longe da cidade de Aritium Vetus. O rio – um dos maiores que eu vira até então – corria engrossado ainda pelas chuvas, mas os nossos guias conheciam o ponto ideal para a travessia, que se fez sem incidentes. Apesar das palavras de amizade e aliança, progredíamos com cautela e em ordem de combate. Na Ibéria, as relações entre os povos não eram pacíficas, mesmo quando se tratava de tribos aparentadas (ainda hoje isso acontece, de resto). As guerras tribais eram muito frequentes, sobretudo na Lusítânia, onde os povos montanheses atacavam os das planícies ou se guerreavam entre si por questões de gado, mulheres ou ofensas hereditárias.
Quando os últimos homens da hoste chegaram a salvo à margem norte, oferecemos libações às divindades do Tagus, em agradecimento por nos terem permitido atravessar os seus domínios, e retomámos a marcha. Eu estava alegre como um pardal; habituara-me à minha nova vida e não sentia falta dos confortos de Gadir.
Mesmo assim, por várias vezes fiquei chocado (embora nada dissesse) quando, à medida que avançávamos para o Norte, contactávamos com as tribos serranas, cujos costumes são ainda os dos seus antepassados. Tanto os povos da Bética – sobretudo os Turdetanos – como os Cónios são educados e civilizados. Um dos antigos reis do Cineticum, Gargoris, tornou-se mesmo famoso por ter descoberto as vinudes do mel, cujo uso introduziu na alimentação e nos ritos. Agora, eu deixara esse mundo e entrara num outro, mais antigo e brutal. Descobri que era verdade o que ouvira em Balsa, ou seja, que muitas divindades das terras altas exigiam sacrifícios humanos. Numa pequena cidade fortificada que encontrámos no nosso itinerário, os habitantes tinham acabado de ler os presságios nas veias de um prisioneiro, um homem da planície que o sacerdote oferecera a Bandiarbariaico. O espectáculo do cadáver aberto, envolto ainda na veste de sacrifício, revoltou-me o estômago.
Três dias depois de deixarmos o Tagus, avistámos ao longe a encosta dos Hermínios, que formam a mais alta serra da parte ocidental da Lusitânia. É uma região muito bela, de uma beleza agreste, bem diferente da paisagem que me era familiar.
Começámos a encontrar grupos de guerreiros que se dirigiam, como nós, para o sopé dos Hermínios, respondendo a um apelo idêntico. As saudações trocadas eram cerimoniosas e cada corpo de homens prosseguia a marcha separadamente. Até que fosse concluída uma aliança formal, selada por juramento, não se podia falar em exército lusitano.
Compreendia-se, aliás, a razão que motivara a escolha daquele ponto de encontro. A região era um imenso vale, uma espécie de "cova" gigantesca delimitada por serranias e colinas, com espaço bastante para que várias hostes acampassem a certa distância umas das outras. Só os notáveis e as suas escoltas participariam na assembleia.
Viajámos durante mais um dia e recebemos ordens para acampar na orla de um bosque. Ficaríamos estacionados sob o comando de Apuleio, enquanto Cúrio partiria na manhã seguinte ao encontro dos outros chefes.
Fui escolhido para fazer parte da escolta que o acompanharia (uma honra que não esperava) e passei boa parte da noite a limpar as armas, o escudo e o capacete e a reparar estragos na minha couraça; além disso, tirei da bagagem a melhor das minhas duas túnicas. Sempre pensei que um guerreiro deve cuidar da sua aparência antes de participar em cerimónias ou entrar em combate, pois nessas circunstâncias ele representa, de certo modo, o povo a que pertence.
Enorme e alegre confusão reinava no local escolhido para a assembleia, nas margens de um regato. Escravos erguiam as tendas onde os chefes passariam a noite, enquanto bandos de mulheres com trajos coloridos, vindas das povoações próximas, preparavam as mesas para o banquete que encenaria a reunião. A cada instante cruzavam-se as insígnias das várias tribos, empunhadas por guerreiros a cavalo que trocavam saudações e gracejos ruidosos. No lado norte do recinto, onde se viam cinco aras de pedra muito antigas, sacerdotes ocupavam-se na construção das piras para os sacrifícios.
Cúrio tinha amigos entre os chefes presentes e logo se embrenhou em conversa com eles, deixando a escolta entregue a si própria. Dispersámos; e eu, que não conhecia ali ninguém, diverti-me a observar as raparigas – algumas bastante bonitas – que se afadigavam já em volta das fogueiras onde seriam assadas as peças de carne para o festim.
De repente, tive a sensação de que estava a ser observado e uma voz fez-me estremecer:
– Voltamos a encontrar-nos, filho de Tongétamo!
Girei sobre mim próprio e deparei com Viriato; precipitei-me para ele e abracei-o com tanta alegria como se fosse um irmão reencontrado. Não era preciso perguntar para saber que Viriato estava ali na qualidade de comandante; a mesma aura de poder que eu notara antes continuava a revesti-lo como se fosse um manto real – no entanto, ao contrário dos outros chefes, não usava um único adorno de ouro. As vírias que lhe cingiam os braços eram de bronze, envergava a mesma couraça de linho entrançado que vestia quando o conhecera e a única concessão aparente à solenidade da ocasião estava nas três grandes plumas vermelhas que enfeitavam o seu capacete.
Mal tinha começado a falar com ele quando uma fortíssima palmada nas costas me fez dar dois passos em frente e um berro amigo atroou os meus ouvidos:
– Olha, o nosso Coniozinho!
Era Táutalo, que já sabia por um dos meus camaradas que eu me alistara na hoste de Cúrio: "Quando me disseram que tinham arranjado um novato em Arcóbriga, percebi logo que eras tu", exclamou.
Trocámos informações, ou, melhor dizendo (já que eu não tinha notícias para dar), eles relataram-me as últimas novidades, tanto da Lusitânia e da Calécia como das terras submetidas aos Romanos. De tudo o que me disseram retive dois factos. O primeiro referia-se às dificuldades com que se debatia a dinastia usurpadora que governava Brácara: o descontentamento contra o rei era tão grande que este preferira manter-se na sua capital e não estaria presente na assembleia; quanto aos nobres da facção adversa; tinham receado ausentar-se deixando ao monarca o campo livre. Como resultado, a coligação que se preparava não poderia contar com os Brácaros – "o que para ti é uma boa notícia", comentou Viriato.
O segundo ponto importante era a situação no território romano, onde as autoridades não sonhavam sequer com a possibilidade de um ataque. O extermínio dos dez mil Lusitanos (sem falar dos vinte mil vendidos na Gália) era uma coisa ainda recente e criara um sentimento de segurança e a convicção de que a Lusitânia não poderia tão cedo criar problemas a Roma.
– Essa é a nossa arma mais importante – disse Táutalo – porque vamos cair de surpresa sobre eles e varrê-los até ao mar!
Viriato olhou-o com ar divertido, mas logo ficou sério.
– Até ao mar, não creio. E veremos, mesmo, até onde podemos varrê-los...
Nesse momento vieram chamá-lo. Intrigado com o que ele dissera, perguntei a Táutalo se havia razões para duvidar do nosso êxito. Encolhendo os ombros, respondeu-me que Viriato concluíra, por conversas com outros chefes, que seria difícil chegar a um acordo para estabelecer um comando único, centralizado num só homem.
– É um velho hábito nosso – observou – nenhuma tribo quer ceder o comando a um estranho, mesmo Lusitano, salvo em casos de grande emergência.
– Mas... e Púnico? E Césaro? E Cauceno...?
– Comandavam os seus povos. Oh, bem sei, tinham alguns aliados, mas nunca puderam tomar uma decisão importante sem primeiro reunir em conselho ou assembleia para discutir longamente. É um antigo costume e todos se agarram a ele. Viriato pensa que esse sistema não resulta quando se trata de combater os Romanos.
Táutalo abordou uma rapariga que passava com uma ânfora cheia de cerveja e tirou-lha, ao mesmo tempo que lhe lançava um galanteio. Ela riu, deu-lhe uma palmada na mão e cedeu-lhe a ânfora. Recusei a bebida que me era oferecida e perguntei ainda se Viriato ia dizer o que pensava na assembleia. Durante alguns momentos tive como única resposta o gorgolejar da cerveja, depois Táutalo limpou a boca às costas da mão e disse:
– É difícil. Viriato é conhecido e respeitado, mas não é um chefe de tribo e o nosso contingente é pequeno. Somos os melhores, disso não tenho qualquer dúvida, mas não passamos de mil cavaleiros e é preciso que nos vejam em acção para compreenderem certas coisas... entretanto, Viriato tem um aliado importante: Caturo, Rei dos Igeditanos. Cerca de trezentos homens de Igedium fazem parte do nosso grupo. E o mesmo se passa com os Vetões... mas não sei se isso basta.
Uma trompa soou chamando os chefes para a assembleia. Antes de me separar de Táutalo quis saber o que pensava ele, pessoalmente, da ideia de Viriato.
– Por mim está tudo bem desde que haja luta – disse a rir – mas o Comandante é que percebe de estratégia E tem sempre razão. Isso é também uma coisa que os outros só compreenderão mais tarde!
** *
A desordem e o barulho tinham acabado. Os chefes estavam sentados em toscos bancos de madeira, formando um vasto círculo, e atrás de cada um a respectiva escolta mantinha-se de pé, em formação. Era um espectáculo curioso: ao lado de homens da planície, como os de Aeminium, cujos nobres tinham envergado os seus melhores trajos, onde rebrilhavam ouro e jóias, viam-se ferozes guerreiros serranos com os corpos reluzentes de óleo e os longos cabelos presos atrás por uma correia, como se fossem entrar em combate logo a seguir.
Os discursos arrastaram-se, longos e inflamados, mas na sua maioria repetitivos. De vez em quando eu observava Viriato, que estava no lado oposto do círculo, quase na minha frente: quieto e calado, escutava com atenção mas não pedia a palavra. A insígnia da sua tribo, que representava um touro, era empunhada por Táutalo; este, colocado atrás do seu comandante como se quisesse protegê-lo de um ataque pelas costas, dava frequentes sinais de impaciência.
As suas previsões confirmaram-se. Viriato não falou mas Caturo advogou com insistência a escolha de um general que unificasse o comando das tropas. Todavia, o rei não participaria na expedição – tinha problemas nas fronteiras – e isso prejudicava os seus argumentos. No final, foram escolhidos cinco chefes (cujos nomes já não recordo) segundo os múltiplos parentescos e alianças que uniam ou dividiam os diversos povos.
O Sol declinava quando a assembleia dispersou e todos, num ambiente de azáfama festiva, se prepararam para o banquete que estava servido. Mais tarde, quando o vinho e a cerveja haviam alegrado ainda mais os convivas e os cânticos de guerra faziam tremer as copas das árvores, consegui encontrar de novo Viriato. Mantinha-se perfeitamente sóbrio (Táutalo, perdido de bêbado, gatinhava soltando urros). Perguntei-lhe até que ponto a decisão da assembleia prejudicaria o resultado da nossa empresa. Relanceando os olhos em volta, com um ar imperturbável, ele respondeu:
– Veremos. O que me aborrece é que o resultado, agora, vai depender dos Romanos e não de nós próprios. Afastou-se, reclamado por um dos seus homens, e eu fiquei a pensar como gostaria de combater sob as suas ordens. Mas dera o meu compromisso aos príncipes e um homem tem de respeitar a sua palavra.
No dia seguinte, a parte da manhã foi dedicada às cerimónias religiosas, que se iniciaram logo ao romper do Sol. Porcos, touros, bodes e cavalos foram oferecidos aos deuses guerreiros de todas as tribos ali representadas. O número de vítimas era tão elevado que pelo meio-dia o ar tornou-se quase irrespirável com o cheiro a sangue, gordura e carne queimada que se desprendia das aras e das piras. Os presságios anunciaram muitos perigos e alguns reveses, mas também uma grande vitória. Fizeram-se então os juramentos solenes tomando os deuses por testemunhas e realizaram-se jogos: corrida, luta corpo-a-corpo e esgrima. Ganhei um prémio (uma adaga com o cabo de prata) numa das corridas. Ao fim da tarde, o vale encheu-se de luzes – milhares de homens – os vários contingentes tinham-se concentrado – sentavam-se em torno dos fogos onde cozinhavam os alimentos para a ceia.
Quando me dirigia ao meu acampamento, alguém me chamou: Táutalo, que insistia em felicitar-me pela vitória. Acabei por sentar-me ao seu lado e bebi com ele e com os seus companheiros, todos do grupo de Viriato. Este já se retirara para a sua tenda, após ordenar que a confraternização não fosse muito longe na bebida.
– E aposto – disse Táutalo – que o Comandante se deitou vestido e armado, já pronto para a partida. Para ele, guerra é guerra, até mesmo durante a noite!
Esse comentário proporcionou-me um ensejo – que eu esperava – para lhe pedir informações sobre o passado de Viriato: que família era a sua?, como se tornara um chefe de guerra?, tinha sangue real?
Táutalo não se fez rogado; conhecia Viriato desde a infância e, tal como todos os outros, sentia um imenso orgulho por combater sob a sua insígnia. Contou-me que o pai de Viriato, Comínio, fora um pequeno chefe tribal do vale do Tagus. Segundo o costume lusitano, o primogénito era o único herdeiro dos bens familiares e por isso Viriato, o terceiro filho (o segundo era uma rapariga), vira-se forçado, como muitos outros jovens, a escolher a vida rude dos bandos que saqueavam as ricas terras do Sul. Sobressaíra rapidamente pelas suas qualidades; a apoiá-las estava a experiência que tivera como criança e adolescente: aos cinco anos, o pai, antes de partir para a guerra, deixara-o com a mãe e os irmãos sob a protecção dos Igeditanos, de quem era aliado. Comínio morrera em combate e Viriato crescera entre os guerreiros de Igedium e com eles se preparara para a guerra. Andara pelas serranias, guardara rebanhos, travara relações com os montanheses e quando atingira os dezasseis anos era um homem feito, curtido pelo vento e o ar livre, com enorme resistência física e uma admirável capacidade de comando. O primeiro bando em que se integrara depressa o elegera como chefe.
– Desde essa época – concluiu Táutalo – ele é o nosso comandante e há homens que se batem para entrar no seu bando. Não só por ele ser o mais forte, não só por ser justo; os guerreiros sabem que com ele no comando têm mais probabilidades de sobreviver e de vencer. Muitos reis gostariam de ter um filho como Viriato... a começar, meu caro Tongio, pelo Rei dos Brácaros, que hoje deve amaldiçoar a hora em que a sua família destronou o teu avô Tongétamo!
– Desejo ardentemente que continue a maldizer essa hora – resmunguei. Mas no fundo estava pouco interessado nas discórdias intemas de Brácara; outra coisa me preocupava.
– Não repitas isto – disse a Táutalo. – Eu próprio lamento não poder passar-me para a insígnia do touro. Dei o meu juramento a Cúrio e seria um desonra abandoná-lo...
Ele olhou-me. – Quem sabe? Os azares da guerra alteram a nossa vida.
II
De pé sobre o topo irregular de um rochedo, fixei o olhar no casario que se destacava, recortado contra o céu vermelho, na linha do horizonte, e procurei dominar a emoção que sentia ao rever Gadir.
Tinham-se cumprido os vaticínios. A nossa hoste precipitara-se como um furacão sobre a Bética, levando à frente as populações e as guarnições romanas colhidas de surpresa. Ninguém acreditara que os Lusitanos, dizimados por Galba, seriam capazes de levantar efectivos para empreender uma expedição como aquela e o resultado desse excesso de confiança estava patente: em poucas semanas atravessáramos a Betúria e entráramos na Turdetânia, uma terra fértil e rica, prometendo abundantes despojos. Agora, carregados com o produto das pilhagens, estávamos à vista de Gadir e dentro de dois dias, no máximo, podíamos atacar a cidade – o que me levava a pensar na melhor forma de proteger Eunois.
Seria talvez a nossa primeira batalha, pois até então apenas traváramos curtos recontros depressa resolvidos com a chacina ou a fuga do inimigo. "Uma expedição assim nem dá gosto", comentara Táutalo, que lutava por puro prazer e se lamentava de "não ter conseguido sujar a lâmina da espada".
Nos últimos dias, eu vira-o, e a Viriato, por diversas vezes. Em marcha e nos acampamentos, eles e os seus homens estavam perto das tropas de Cúrio e Apuleio. Por isso pude observar, uma vez mais, a diferença que havia entre Viriato e os outros comandantes. No seu conjunto, as nossas tropas dificilmente poderiam ser consideradas um verdadeiro exército; eram uma horda repartida em vários corpos que progrediam sem ordem, segundo o desejo ou a inspiração de cada chefe. Os mil guerreiros que cavalgavam atrás da insígnia do touro formavam, esses sim, um pequeno exército disciplinado. Quando acampavam, as tendas eram dispostas de acordo com uma ordem estabelecida; durante a marcha, os homens conheciam a posição que deviam ocupar e o que lhes competia fazer. Batedores postados na vanguarda e nos flancos da coluna vigiavam permanentemente o terreno.
Outra diferença importante estava na repartição dos despojos. Quase todos os chefes escolhiam primeiro as melhores peças e as mulheres mais jovens, o resto ficava para quem conseguisse deitar-lhe a mão e eram frequentes as rixas, não só entre guerreiros como até entre comandantes. Nada disto sucedia no acampamento de Viriato. Com uma autoridade absoluta e jamais contestada, ele distribuía os despojos segundo o valor demonstrado por cada homem e para si reservava somente alguma coisa de que tivesse necessidade: uma espada, um dardo, uma túnica – por vezes, mesmo, não queria nada. Quanto às mulheres, só deixava que tocassem nas escravas e não via com bons olhos que estas fossem maltratadas.
Em consequência, a harmonia reinava sempre entre os mil cavaleiros, para quem Viriato era não só o comandante mas também o juiz, o protector e quase um deus. Homens maduros, endurecidos por anos de guerra, obedeciam-lhe sem pensar que ele poderia ser seu filho. Ao considerar tudo isto, desejei mais uma vez poder passar sem desonra para a sua insígnia.
Foi precisamente a voz de Viriato que me trouxe à realidade:
– Sonhando com a infância, Tongio?
Encontrava-se na base do rochedo em que eu me empoleirara. Em dois saltos desci e aproximei-me dele.
– Não; pensava antes na conquista de Gadir. Vivi lá um homem, um Grego, que me ajudou. Gostaria que ele fosse poupado.
Viriato abanou a cabeça com ar de dúvida. – É difícil, quando os bandos entram de roldão numa cidade... mas fala a Cúrio. Talvez possas convencê-lo... isto, claro, se chegarmos a entrar em Gadir.
Algo na sua voz me chamou a atenção. – Porque dizes isso? Pensas que não vamos conseguir?
Ele encolheu os ombros. – Não sei... penso que as coisas têm corrido bem demais. Os Romanos podem ser apanhados de surpresa, mas não desistem e tentam sempre vingar aquilo que consideram uma afronta. Além disso, são poderosos.
– Bom – objectei – nós varremos a Betúria e a Turdetânia quase sem luta!
– Precisamente. Estamos bem dentro de território sujeito a Roma, às portas da maior cidade da Ibéria. Os Romanos não podem permitir que isso aconteça. Enfim, veremos o que nos traz o dia de amanhã.
Nos acampamentos da hoste ardiam já as fogueiras para a noite e os homens preparavam a ceia. Preferi ignorar as dúvidas de Viriato e preocupei-me somente com a melhor forma de proteger Eunois quando entrássemos em Gadir. Falaria a Cúrio; um grupo dos nossos podia tentar alcançar a sua casa antes dos outros. Era o mínimo que eu devia fazer para pagar a amizade e a honestidade com que Eunois me tratara. Confiante no meu plano, comi e fui dormir.
Acordei bruscamente com o ruído de vozes soltando imprecações e o tinir de armas a serem empunhadas à pressa. "Um ataque", pensei. Mas quando saí da tenda – a noite clareava e as fogueiras estavam quase apagadas – só vi homens correndo de um lado para outro. Num magote, avistei Táutalo, Viriato e Apuleio; Cúrio chegava nesse momento. Corri para lá.
Os homens apinhavam-se à volta dos corpos ensanguentados de dois legionários romanos. Das falas desencontradas, depreendi que haviam sido apanhados quando passavam furtivamente perto do nosso acampamento, seguindo na direcção de Corduba. Viriato, irritado, censurava Apuleio porque os captores – guerreiros sob o comando do príncipe – tinham-se apressado a trucidar os legionários em vez de os trazer vivos.
– Os emissários nunca se matam – dizia ele, forçando-se à contenção – pelo menos até revelarem as mensagens que levam. Nós precisávamos dessas informações!
– Bem – resmungou Cúrio, mergulhando os dedos na barba – agora é tarde para os interrogar. De qualquer modo, o recado não chegara ao destino e isso já é uma boa coisa... vocês – acrescentou virando-se para os homens que haviam interceptado os Romanos – merecem pelo menos os despojos.
Fascinado sem saber porquê, fiquei a vê-los revistar e despir os corpos. Num deles encontraram algumas moedas de prata e de cobre, que logo foram repartidas. De repente, vi que um dos guerreiros tinha nas mãos um objecto que me era familiar. Examinou-o, certificou-se de que não era feito de metal precioso e lançou-o para o chão. Involuntariamente dei um grito e precipitei-me sobre ele.
O homem que o atirara olhou-me espantado. – Que é? Isso não tem valor e se tivesse pertencia-me!
Devagar, levantei até à altura dos seus olhos a tabuinha dupla cujas faces interiores estavam revestidas de cera gravada.
– Isto é a coisa mais preciosa dos despojos, mas não te pertence nem teria utilidade para ti. É a mensagem que eles levavam.
Apuleio começou a falar, no tom de um garoto com birra:
– E daí? Quem vai entender o que está escrito...
Deixei de lhe prestar atenção porque alguém mais perto de mim chamou tranquilamente: – Tongio...
Encarei Viriato, cujos olhos cintilavam.
– Tu sabes ler, não é verdade? E falas a língua dos Romanos...
– Claro que sim. Perdi bastante tempo de jogos e brincadeiras para aprender Latim e Grego... e outras coisas.
Quebrei o selo. A luz era já suficiente para decorar a mensagem e li-a em voz alta perante o espanto dos guerreiros que me cercavam, homens para quem a escrita era um mistério próximo da magia. A carta estava assinada por um tribuno militar, provavelmente o comandante da guarnição de Gadir, e destinava-se a um pretor Caio Vetílio, em Corduba. O tribuno dizia que os Bárbaros (nós) podiam já ser avistados do alto das muralhas gaditanas; a cidade estava em perigo e pedia-lhe que avançasse urgentemente para o Sul "com as novas tropas".
– Quem é esse Caio Vetílio? Nunca ouvi falar... – rosnou Apuleio. Cúrio disse o mesmo e ambos se voltaram para Viriato como se este devesse dar-lhes uma resposta. Ele sacudiu a cabeça e disse num tom vagamente sarcástico:
– Também nunca lhe fui apresentado, mas não é difícil compreender de quem se trata. Com certeza chegou há pouco de Roma e, como é pretor, estou quase certo de que é o novo governador romano para o território que eles chamam a Hispânia Ulterior. Está em Corduba, com tropas frescas, e isso basta para alterar os planos; Cúrio... – a voz de Viriato tornou-se tensa e velada – é preciso reunir um conselho imediatamente. Já não podemos atacar Gadir.
Apuleio protestou, mas Cúrio, após reflectir um momento, gritou uma ordem e logo as trompas soaram convocando os chefes. No meio da agitação, Viriato aproximou-se de mim.
– Táutalo contou-me – disse – que gostarias de te juntar a nós. Ainda pensas da mesma forma?
Respondi que sim e que só o compromisso assumido perante Cúrio me impedia de solicitar a admissão.
Viriato deu uma leve palmada no meu ombro: – Aprecio os teus escrúpulos. Há talvez uma forma de satisfazer esse desejo sem quebra de palavra... espera uns dias, vou ver o que posso fazer.
Quis agradecer-lhe mas ele interrompeu-me: – Não o faria se não pensasse que és uma aquisição importante... sim, deixa esse ar de espanto. Sabes lutar, embora não tenhas muita experiência; há decerto guerreiros melhores que tu, mas nenhum deles sabe ler e poucos são os que conhecem outra língua que não seja a que aprenderam com a mãe. Qualquer coisa me diz, Tongio filho de Tongétamo, que serás muito útil.
Os comandantes tinham começado a chegar, intrigados ou irritados, segundo os seus temperamentos, com a chamada a conselho. Sobretudo os cinco chefes supremos pareciam considerar ultrajante que mais alguém se desse ao luxo de fazer uma convocação. Porém, as notícias, logo que foram conhecidas, levaram-nos a esquecer os pruridos.
Não assisti ao conselho, mas contaram-me como decorreu. Até mesmo os mais teimosos compreenderam que não era possível tomar Gadir. Arriscávamo-nos a ser atacados pelas costas durante o cerco e se entrássemos na cidade bastaria que as tropas do novo pretor chegassem entretanto para ficarmos encurralados em Kotinoussa, tendo o mar como única saída. Muitos dos nossos nunca haviam entrado num barco e, de resto, os Romanos e os Gaditanos usariam todas as embarcações disponíveis para fugir à nossa chegada.
Afastada esta ideia, restava decidir o que faríamos. Viriato propôs que nos dispersássemos em grupos e tentássemos obter mais informações sobre os reforços do inimigo; outros queriam avançar em direcção a Corduba e enfrentar Caio Vetílio, confiados na reputação de invencibilidade que ganháramos ao entrar na Betúria.
Esta última opinião prevaleceu. Para compensar os homens pela perda da pilhagem de Gadir, decidiu-se que saquearíamos a cidade de Urso, que ficava no itinerário para Corduba.
Encontrámos as tropas de Vetílio mais cedo do que esperávamos. Um dia depois de termos interceptado os mensageiros de Gadir, a nossa vanguarda travou um breve recontro com cavaleiros romanos surgidos inesperadamente de um bosque.
Desta vez, o inimigo não entrou em pânico e não fugiu. Logo nos primeiros momentos de combate tornou-se claro que lutávamos com tropas bem diferentes daquelas que tínhamos encontrado até então. Sofremos bastantes baixas e o próprio Cúrio esteve em perigo; Viriato, que contra o seu hábito se aproximou e misturou os seus homens com os nossos, salvou-lhe a vida trespassando com um dardo o decurião que o atacava pelas costas. No final, a cavalaria romana reúrou em boa ordem.
Enquanto os guerreiros recuperavam os corpos dos camaradas para lhes prestarem as honras fúnebres, Cúrio foi ter com Viriato e estendeu-lhe a mão:
– Estou em dívida contigo e não gosto de ficar a dever a minha vida a alguém, mesmo quando esse alguém és tu. Se concordares, escolherás o que quiseres nos despojos que trago; ou, quando saquearmos Urso, ficarás com a minha parte.
Viriato soltou uma gargalhada. – Agradeço-te, mas falas com demasiada confiança do saque de Urso. Se queres pagar-me, podes fazê-lo já, sem perder as riquezas que ganhaste.
Virou-se para mim e chamou: – Tongio! – aproximei-me corando, ao perceber a sua ideia.
– Este jovem guerreiro – disse Viriato – é um antigo conhecimento meu. Na verdade, devo-lhe um belo cavalo e ainda não lho paguei... dispensa-o do Juramento, permite que ele passe para o meu grupo e estamos quites.
Foi a vez de Cúrio largar a rir.
– Se o queres, assim seja! Tongio, liberto-te do compromisso; a partir de agora, o teu comandante será Viriato filho de Comínio.
Ainda a rir, afastou-se. Encarei o meu novo chefe com os olhos húmidos de emoção.
– Não sei o que posso dizer. Compreendo agora... porque te aproximaste tanto de Cúrio durante a luta. Pensavas...
– Pensava arranjar um meio de o pôr em dívida para comigo? E porque não? Disse-te já que não é difícil arranjar um bom combatente, mas conseguir um intérprete – e letrado, ainda por cima – é outra questão.
– Bem, mas espero que me deixes combater!
O sorriso desapareceu do seu rosto. – Podes estar certo disso. Todos teremos de combater... os próximos dias não vão ser fáceis, Tongio, e continuo a pensar que é um erro prosseguir o avanço para Urso.
O meu alistamento foi saudado alegremente pelos guerreiros que eu já conhecia. Senti-me logo à vontade – mais que com os homens de Cúrio e Apuleio, que se mantinham agarrados aos seus preconceitos de tribo. As tropas de Viriato, formadas por uma mistura de Lusitanos da planície e das serras, Igeditanos e Vetões, eram mais fiéis ao espírito de corpo que à solidariedade tribal.
Nessa mesma noite, durante uma reunião com vários chefes, Viriato voltou a defender, em vão, a ideia de que deveríamos evitar um ataque a Urso. Eu estava perto e ouvi a discussão. Os cavaleiros que encontráramos, argumentou ele, eram a guarda avançada de Caio Vetúlio. Tinham dado provas de experiência e disciplina superiores às dos nossos e se o exército do pretor era formado por tropas com aquela qualidade, não devíamos arriscar uma batalha campal.
Porém, a ânsia da pilhagem era mais forte que a voz do bom senso. No dia seguinte, adoptámos já, em marcha, a ordem de batalha, com a cavalaria à frente para forçar as linhas inimigas. Nesta formação, o grupo de Viriato ocupava a ala direita. Avançávamos numa região povoada em tempo de paz, mas cujos habitantes haviam fugido para as matas e cabeços fortificados, pressentindo a aproximação da guerra. Apenas algumas cabeças de gado – bois e cabras magros e doentes, que não valia a pena conservar – vagueavam desamparados pelos campos. Urso devia estar pejada de refugiados, homens e animais.
O Sol tombava a pique e muitos dos nossos tiraram os capacetes para melhor suportar o calor. Viriato, fiel ao seu costume, enviara batedores para reconhecer o terreno à nossa frente. Voltaram acompanhados por um pequeno grupo de cavaleiros armados, habitantes de Urso, que tinham decidido juntar-se a nós, ou por ódio aos Romanos ou por pensarem que éramos os mais fortes; os seus chefes, dois homens de cabelos grisalhos chamados Audax e Minuro, conferenciaram com Viriato, que antes de os enviar aos cinco generais os interrogou longamente. O exército do pretor, disseram, estava já perto, barrando o caminho para Urso; eram cerca de dez mil homens.
– Estamos em igualdade de forças – murmurou Táutalo, que cavalgava ao meu lado – mas Viriato tem razão: são legiões chegadas de Roma, frescas e bem treinadas. A brincadeira acabou... ora, tanto melhor, vamos enfim ter uma luta a valer.
O dia terminou sem que víssemos sinais dos Romanos. Nessa noite, não houve fogueiras e tivemos de contentar-nos com carne salgada e pão de bolota. De madrugada, Viriato mandou acordar os seus homens para lhes dar instruções: em caso algum deveríamos abandonar a formação, mesmo se os Romanos fugissem. Toques de trompa especiais dariam as ordens necessárias durante a batalha. E acima de tudo: não haveria tempo para sacrificar vítimas e ler presságios (Táutalo confidenciou-me, mais tarde, que o próprio Viriato fizera um sacrifício durante a noite e que os sinais eram desfavoráveis).
Como resultado, ao nascer do Sol estávamos a cavalo e em movimento, o que forçou o resto das tropas a apressar os preparativos, para grande irritação dos outros chefes. A manhã ia alta quando a formação ficou terminada. Pouco depois avistámos as muralhas de Urso – entre elas e nós o exército romano esperava.
** *
Os veteranos poderiam talvez descrever a batalha e explicar os erros que nós cometemos. Tudo me pareceu caótico logo de início, pois tanto quanto posso recordar começámos mal: os cavaleiros lusitanos, entoando os seus impressionantes hinos de guerra, precipitaram-se sobre as legiões mas fizeram-no indiscriminadamente. Antes de atingirem as linhas inimigas, uma chuva de dardos lançados pelos velites abateu-se sobre eles e dizimou-os. Depararam então com uma muralha de lanças empunhadas pelos triários e enquanto procuravam em vão abrir uma brecha os esquadrões da cavalaria romana atacaram os nossos flancos. A ala comandada por Viriato resistiu, mas o flanco oposto cedeu à pressão e em breve o combate se transformou numa terrível mortandade. De todos os corpos de tropas lusitanas só o nosso manteve a formação, cumprindo as ordens de Viriato. Com este à frente, lançámos uma carga temerária para cobrir a fuga dos outros. Essa carga, que os Romanos já não esperavam, salvou muitas vidas, porém a derrota era completa. No campo ficaram milhares de Lusitanos e só o nosso grupo saíra ileso, por favor dos deuses – e porque ninguém fugira.
Um trabalho esgotante estava ainda à nossa espera: tentar reunir os fugitivos. Cúrio e Apuleio tinham conservado à sua volta algumas centenas de homens e com eles procurámos estabelecer uma linha de protecção. Ao cair da noite, cobertos de suor, de pó e de sangue, reunimo-nos num pinhal para discutir o que havia a fazer. Tínhamos já uma ideia mais ou menos exacta da situação: connosco encontravam-se dois mil homens a cavalo, alguns com ferimentos mas capazes de se mexer. Os feridos mais graves estavam condenados a receber o golpe de misericórdia dos legionários, que entretanto pareciam ter regressado às posições que ocupavam antes da batalha.
– É estranho! – exclamou Viriato limpando com a mão o Suor que he cobria a testa – seria de esperar que nos dessem caça.
– Têm medo de se aventurar em terreno desconhecido – comentou Apuleio, que combatera como um animal feroz e acabara por quebrar a espada contra uma couraça romana – mas agora devemos aproveitar essa vantagem para encontrar um refúgio. Audax, um dos homens de Urso, interveio:
– Conheço um bom lugar, uma povoação abandonada, perto daqui. As muralhas ainda estão de pé. É um lugar muito antigo e não sei se há nele alguma maldição.
– Não pode haver pior maldição que a que nos caiu hoje em cima – rosnou Cúrio. – Se apanho a jeito os sacerdotes que nos leram os presságios nos Hermínios, vou dizer-lhes umas palavrinhas que não esquecerão tão depressa! Viriato, pensativo, acariciava o pescoço do seu cavalo.
– Mas se nos refugiarmos aí – lembrou – arriscamo-nos a ficar cercados!
Apuleio fez um gesto de impaciência que agitou o seu manto de peles, rasgado por inúmeras espadeiradas.
– E que outra solução resta? Precisamos de um sítio para passar a noite, para reunir os nossos e tratar dos feridos. Além disso, está a escurecer.
Decidiu-se que Audax guiaria a maior parte dos homens para a povoação deserta enquanto Viriato, com uma centena de guerreiros, procuraria encontrar mais fugitivos antes de se lhes reunir, guiado por Minuro, o amigo de Audax.
Acompanhei Viriato. Durante grande parte da noite, iluminados apenas pelo luar, batemos a região. O campo de batalha estava-nos interdito porque era guardado por patrulhas romanas (quando nos aproximámos, ouvimos os gritos dos nossos companheiros caídos, que os legionários degolavam). No meio daquele pesadelo, foi ainda possível encontrar e reunir um milhar de guerreiros que vagueavam pelos campos ou se escondiam nas matas. Enfim, dirigimo-nos para o refúgio.
A antiga cidade estava quase intacta, só a cintura exterior se encontrava arruinada. Um arrepio percorreu-me as costas quando vi as muralhas e as velhas casas de forma circular, testemunhando uma época morta havia muito. Que espíritos habitariam ali? Como aceitariam a nossa presença? Minuro garantiu-nos que muitos habitantes da região, quando iam à caça, pernoitavam naquele local sem serem molestados.
Quando entrámos no recinto fortificado já este se encontrava cheio de homens e cavalos. No pequeno largo fronteiro ao templo – este sem telhado nem imagens sagradas – estavam deitados os feridos, que alguns homens, conhecedores dos rudimentos da arte de curar, procuravam socorrer como lhes era possível. Sentia-me capaz de dormir um ano inteiro, de exausto que estava; contudo, o espectáculo de Viriato e Táutalo (ambos tão fatigados como eu) organizando os turnos de vigia e procurando estabelecer um mínimo de ordem levou-me a querer mostrar que também estava à altura da emergência. Conhecia um dos homens que tratavam dos feridos, um jovem Vetão Chamado Arduno, que pertencia ao nosso grupo. Fui ter com ele e ofereci os meus préstimos. Arduno ergueu para mim os olhos surpreendidos.
– Todos os dias me espantas, Tongio! Então, além de saber ler também és curandeiro?
– Não propriamente, mas quando vivia no santuário de Endovélico ajudava a minha mãe a cuidar dos peregrinos.
– Muito bem – respondeu ele – então, ao trabalho! – e entregou-me uma ervas, que fora desencantar não sei onde, para que eu fizesse com elas um unguento.
Atarefámo-nos a lavar feridas, improvisar pensos e distribuir a pouca' água que havia pelos homens que ardiam em febre. Finalmente, quando tínhamos feito o que era possível fazer, parei e encostei-me a uma parede, tão cansado que tinha medo de cair. Um pequeno odre de barro surgiu debaixo do meu nariz.
– Bebe – disse Táutalo – estás a precisar disto. Era cerveja de má qualidade mas soube-me como se fosse néctar.
Agradeci-lhe, devolvi-lhe o odre e perguntei:
– Já contaram os sobreviventes? Ele fez um gesto afirmativo.
– Perdemos mais de metade dos nossos. A expedição acabou, Tongio, e teremos muita sorte se conseguirmos sair vivos daqui.
– Mas os Romanos não nos perseguem...!
– Pois não e isso pode ser mau sinal. Enfim, é uma preocupação para amanhã. Agora, vai dormir. Assim fiz. Dormi profundamente, mas por pouco tempo. Acordei ao romper da aurora e logo me apercebi de que alguma coisa se passava, porque tanto as muralhas como os rochedos – havia-os dentro do recinto da cidadela – estavam cobertos de homens que, em silêncio, olhavam para o exterior. Levantei-me e subi à muralha.
A luz da manhã deixava ver os campos em redor. E para onde quer que olhasse, só via legionários romanos. Estávamos cercados.

João Aguiar, A Voz dos Deuses, 13ª ed., Porto, Asa, 1992, pp. 125-151.